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Roma V nos distúrbios esofágicos funcionais: o que mudou?

por Rafael Bandeira Lages
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Os distúrbios esofágicos funcionais, agora denominados distúrbios esofágicos da interação intestino-cérebro (E-DGBI), passaram por uma atualização conceitual relevante no Roma V, refletindo avanços diagnósticos e fisiopatológicos recentes.


Principais mudanças do Roma V

1. Integração formal com critérios fisiológicos modernos

Uma das mudanças mais importantes é a incorporação explícita de dois consensos fundamentais:

  • Classificação de Chicago 4.0 → avaliação de motilidade esofágica (veja aqui)
  • Lyon Consensus 2.0 → diagnóstico de DRGE (veja aqui)

Ou seja: O diagnóstico de E-DGBI passa a ser fortemente baseado em exclusão objetiva, utilizando testes fisiológicos e não apenas critérios clínicos. 

2. Diagnóstico mais rigoroso (e mais “excludente”)

O Roma V reforça que o diagnóstico só deve ser feito após excluir:

  • Doença estrutural (endoscopia)
  • DRGE significativa (pHmetria/impedância)
  • Distúrbios motores maiores (manometria esofágica): Atenção que motilidade esofágica ineficaz (MEI) não exclui E-DGBI
  • Esofagite eosinofílica (com biópsia esofágica, quando indicado)

Isso reduz o risco de sobrediagnóstico de distúrbios funcionais, problema frequente no Roma IV. 

3. Maior valorização da esofagite eosinofílica como diagnóstico diferencial

O Roma V enfatiza que a esofagite eosinofílica deve ser ativamente excluída, especialmente em:

  • Disfagia
  • Dor torácica relacionada à alimentação

A ausência de biópsia adequada pode levar a diagnóstico incorreto de E-DGBI. 

4. Papel crescente de novas ferramentas diagnósticas

Especialmente na disfagia funcional:

  • Introdução do FLIP (Functional Lumen Imaging Probe) veja mais aqui
  • Maior uso de:
    • Teste com alimento sólido na manometria esofágica
    • Esofagograma (EED)

5. Critérios temporais mantidos, mas reforçados

Para diagnóstico:

  • Sintomas ≥ 3 meses
  • Início ≥ 6 meses antes

Com esse critério temporal, reforça o caráter crônico e não transitório dessas condições. 

6. Redefinição e melhor separação dos fenótipos clínicos

O Roma V mantém os principais subgrupos, mas com critérios mais claros, conforme descrito na Tabela 1:

Distúrbio esofágico da interação intestino-cérebro:Critérios diagnósticos:
Critério temporal (para TODOS):
Sintomas ≥ 3 meses
Início ≥ 6 meses
Frequência: ≥ 1x/semana, apesar de terapia antissecretora por pelo menos 8 semanas

Critério de exclusão (para TODOS):
1. Ausência de evidência de que a doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) ou esofagite não relacionada ao refluxo sejam a causa dos sintomas (conforme critérios do Consenso Lyon 2.0; considerar biópsias de mucosa se disfagia ou se a dor torácica ocorrer durante as refeições)

2. Ausência de distúrbios do esvaziamento da junção esofagogástrica (JEG) e/ou de distúrbios da peristalse esofágica. Obs: Presença de motilidade esofágica ineficaz (MEI) não exclui o diagnóstico funcional
Dor torácica funcionalDeve incluir todos os seguintes critérios:
1. Dor ou desconforto retroesternal (causas cardíacas devem ser excluídas)
2. Ausência de sintomas esofágicos associados, como pirose ou disfagia
Pirose funcional1. Sensação de queimação retroesternal
2. Ausência de alívio dos sintomas apesar de terapia antissecretora otimizada por pelo menos 8 semanas
Hipersensibilidade ao refluxo1. Queimação retroesternal e/ou dor torácica
2. Regurgitação e eructação não são consideradas nesta definição quando ocorrem isoladamente ou em conjunto
3. Evidência de desencadeamento dos sintomas por episódios de refluxo
Globus1. Sensação persistente ou intermitente, não dolorosa, de “bolo” ou corpo estranho na garganta, sem lesão estrutural identificada ao exame físico e à laringoscopia
a. Ocorre entre as refeições
b. Ausência de disfagia ou odinofagia
c. Ausência de gastric inlet patch (mucosa gástrica ectópica) no esôfago proximal
Disfagia funcional1. Sensação de que alimentos sólidos e/ou líquidos ficam presos, impactados ou apresentam trânsito anormal pelo esôfago
2. Ausência de evidência de que anormalidade mucosa ou estrutural esofágica seja a causa do sintoma
° Esofagograma normal com comprimido/marshmallow ou FLIP normal podem apoiar o diagnóstico de disfagia funcional)
° Teste com refeição sólida normal durante a manometria pode apoiar o diagnóstico de disfagia funcional

Tabela 1: Critérios diagnósticos para distúrbios esofágicos da interação intestino-cérebro, conforme Roma V.


Conclusão


O Roma V representa um avanço ao propor uma abordagem mais estruturada para o diagnóstico dos distúrbios esofágicos da interação intestino-cérebro, integrando consensos modernos como Lyon 2.0 e Chicago v4.0 e refinando a distinção entre os diferentes fenótipos clínicos. Essa padronização é particularmente importante porque, apesar da alta prevalência e do reconhecimento crescente dessas condições, os E-DGBI ainda permanecem subestudados, principalmente devido à ausência de algoritmos diagnósticos amplamente aplicáveis e pela heterogeneidade na avaliação sintomática e nos testes fisiológicos. Como consequência, o desenvolvimento de estratégias terapêuticas baseadas em evidências ainda é limitado. Nesse cenário, os avanços futuros passam necessariamente pela consolidação de critérios diagnósticos mais robustos, melhor compreensão dos mecanismos fisiopatológicos e incorporação de uma abordagem multidisciplinar no manejo desses pacientes.

Referência

  1. Gyawali CP, Roman S, Zerbib F, Savarino EV, Bhatia S, Fass R, Pandolfino JE. Functional esophageal disorders. Gastroenterology. 2026. doi:10.1053/j.gastro.2026.02.005.

Como citar este artigo

Lages RB. Roma V nos distúrbios esofágicos funcionais: o que mudou? Gastropedia 2026, Vol II. Disponível em: https://gastropedia.pub/pt/gastroenterologia/roma-v-nos-disturbios-esofagicos-funcionais-o-que-mudou/

Residência de Gastroenterologia e Endoscopia Digestiva pelo Hospital das Clínicas-FMUSP. Doutor em Gastroenterologia pela FMUSP.


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