Roma V nos distúrbios esofágicos funcionais: o que mudou?
Os distúrbios esofágicos funcionais, agora denominados distúrbios esofágicos da interação intestino-cérebro (E-DGBI), passaram por uma atualização conceitual relevante no Roma V, refletindo avanços diagnósticos e fisiopatológicos recentes.
Principais mudanças do Roma V
1. Integração formal com critérios fisiológicos modernos
Uma das mudanças mais importantes é a incorporação explícita de dois consensos fundamentais:
- Classificação de Chicago 4.0 → avaliação de motilidade esofágica (veja aqui)
- Lyon Consensus 2.0 → diagnóstico de DRGE (veja aqui)
Ou seja: O diagnóstico de E-DGBI passa a ser fortemente baseado em exclusão objetiva, utilizando testes fisiológicos e não apenas critérios clínicos.
2. Diagnóstico mais rigoroso (e mais “excludente”)
O Roma V reforça que o diagnóstico só deve ser feito após excluir:
- Doença estrutural (endoscopia)
- DRGE significativa (pHmetria/impedância)
- Distúrbios motores maiores (manometria esofágica): Atenção que motilidade esofágica ineficaz (MEI) não exclui E-DGBI
- Esofagite eosinofílica (com biópsia esofágica, quando indicado)
Isso reduz o risco de sobrediagnóstico de distúrbios funcionais, problema frequente no Roma IV.
3. Maior valorização da esofagite eosinofílica como diagnóstico diferencial
O Roma V enfatiza que a esofagite eosinofílica deve ser ativamente excluída, especialmente em:
- Disfagia
- Dor torácica relacionada à alimentação
A ausência de biópsia adequada pode levar a diagnóstico incorreto de E-DGBI.
4. Papel crescente de novas ferramentas diagnósticas
Especialmente na disfagia funcional:
- Introdução do FLIP (Functional Lumen Imaging Probe) – veja mais aqui
- Maior uso de:
- Teste com alimento sólido na manometria esofágica
- Esofagograma (EED)
5. Critérios temporais mantidos, mas reforçados
Para diagnóstico:
- Sintomas ≥ 3 meses
- Início ≥ 6 meses antes
Com esse critério temporal, reforça o caráter crônico e não transitório dessas condições.
6. Redefinição e melhor separação dos fenótipos clínicos
O Roma V mantém os principais subgrupos, mas com critérios mais claros, conforme descrito na Tabela 1:
| Distúrbio esofágico da interação intestino-cérebro: | Critérios diagnósticos: |
|---|---|
| Critério temporal (para TODOS): Sintomas ≥ 3 meses Início ≥ 6 meses Frequência: ≥ 1x/semana, apesar de terapia antissecretora por pelo menos 8 semanas Critério de exclusão (para TODOS): 2. Ausência de distúrbios do esvaziamento da junção esofagogástrica (JEG) e/ou de distúrbios da peristalse esofágica. Obs: Presença de motilidade esofágica ineficaz (MEI) não exclui o diagnóstico funcional |
|
| Dor torácica funcional | Deve incluir todos os seguintes critérios: 1. Dor ou desconforto retroesternal (causas cardíacas devem ser excluídas) 2. Ausência de sintomas esofágicos associados, como pirose ou disfagia |
| Pirose funcional | 1. Sensação de queimação retroesternal 2. Ausência de alívio dos sintomas apesar de terapia antissecretora otimizada por pelo menos 8 semanas |
| Hipersensibilidade ao refluxo | 1. Queimação retroesternal e/ou dor torácica 2. Regurgitação e eructação não são consideradas nesta definição quando ocorrem isoladamente ou em conjunto 3. Evidência de desencadeamento dos sintomas por episódios de refluxo |
| Globus | 1. Sensação persistente ou intermitente, não dolorosa, de “bolo” ou corpo estranho na garganta, sem lesão estrutural identificada ao exame físico e à laringoscopia a. Ocorre entre as refeições b. Ausência de disfagia ou odinofagia c. Ausência de gastric inlet patch (mucosa gástrica ectópica) no esôfago proximal |
| Disfagia funcional | 1. Sensação de que alimentos sólidos e/ou líquidos ficam presos, impactados ou apresentam trânsito anormal pelo esôfago 2. Ausência de evidência de que anormalidade mucosa ou estrutural esofágica seja a causa do sintoma ° Esofagograma normal com comprimido/marshmallow ou FLIP normal podem apoiar o diagnóstico de disfagia funcional) ° Teste com refeição sólida normal durante a manometria pode apoiar o diagnóstico de disfagia funcional |
Conclusão
O Roma V representa um avanço ao propor uma abordagem mais estruturada para o diagnóstico dos distúrbios esofágicos da interação intestino-cérebro, integrando consensos modernos como Lyon 2.0 e Chicago v4.0 e refinando a distinção entre os diferentes fenótipos clínicos. Essa padronização é particularmente importante porque, apesar da alta prevalência e do reconhecimento crescente dessas condições, os E-DGBI ainda permanecem subestudados, principalmente devido à ausência de algoritmos diagnósticos amplamente aplicáveis e pela heterogeneidade na avaliação sintomática e nos testes fisiológicos. Como consequência, o desenvolvimento de estratégias terapêuticas baseadas em evidências ainda é limitado. Nesse cenário, os avanços futuros passam necessariamente pela consolidação de critérios diagnósticos mais robustos, melhor compreensão dos mecanismos fisiopatológicos e incorporação de uma abordagem multidisciplinar no manejo desses pacientes.
Referência
- Gyawali CP, Roman S, Zerbib F, Savarino EV, Bhatia S, Fass R, Pandolfino JE. Functional esophageal disorders. Gastroenterology. 2026. doi:10.1053/j.gastro.2026.02.005.
Como citar este artigo
Lages RB. Roma V nos distúrbios esofágicos funcionais: o que mudou? Gastropedia 2026, Vol II. Disponível em: https://gastropedia.pub/pt/gastroenterologia/roma-v-nos-disturbios-esofagicos-funcionais-o-que-mudou/