Classificação e escores endoscópicos nas doenças inflamatórias intestinais

As doenças inflamatórias intestinais (doença de Crohn e retocolite ulcerativa) requerem seguimento clínico, laboratorial e endoscópico frequentes, com monitorização da resposta às terapias medicamentosas instituídas. Neste sentido, sabe-se que a cicatrização da mucosa (avaliada em colonoscopia) é preditora da evolução da doença de base. O uso de escores endoscópicos bem estabelecidos visa padronizar os achados do exame e, assim, facilitar sua interpretação clínica na tomada de decisões terapêuticas.

Retocolite ulcerativa

Na retocolite ulcerativa (RCU), dois escores são mais comumente utilizados:

  1. Subescore Endoscópico de Mayo (Mayo Endoscopic ScoreMES)
  2. UCEIS (Ulcerative Colitis Endoscopic Index of Severity).

Resposta endoscópica em RCU é definida como redução de 1 ponto do MES ou de 2 pontos do UCEIS.

Remissão endoscópica, conforme definido pelo STRIDE-II, corresponde a um MES de zero ou UCEIS = 1.

O Subescore Endoscópico de Mayo (MES) avalia o padrão vascular, presença de enantema, friabilidade, erosões, ulcerações e sangramento nas áreas mais inflamadas do cólon (Figura 1). É o escore mais utilizado na prática clínica e em ensaios clínicos devido à sua facilidade de uso. Contudo, o escore não é formalmente validado e a concordância interobservador é variável, classificada como moderada na maioria dos estudos. Dentre os parâmetros avaliados, a inclusão da friabilidade mucosa como variável qualitativa, pode gerar variações nos laudos. Ainda, o fato de levar em consideração apenas a área mais inflamada do cólon é uma limitação do escore, uma vez que não discrimina quanto à extensão da doença.

FIGURA 1 – Subescore Endoscópico de Mayo (MES)
Imagem adaptada de: AGA Clinical Practice Update on Endoscopic Scoring Systems in Inflammatory Bowel Disease: Commentary. Clinical Gastroenterology and Hepatology 2024.

Por outro lado, o UCEIS (Ulcerative Colitis Endoscopic Index of Severity) é o escore endoscópico validado para RCU, possui melhor reprodutibilidade inter e intraobservador (Figura 2). Avalia três parâmetros: padrão vascular (0 a 2 pontos), sangramento (0 a 3 pontos) e erosões/ulcerações (0 a 3 pontos), excluindo portanto a avaliação subjetiva da friabilidade dos seus critérios. A pontuação original era graduada de 3 a 11 pontos (cada variável iniciava em 1 e não em 0), mas foi posteriormente simplificada para 0 a 8 pontos. Contudo, os valores de corte específicos que correspondem a remissão, atividade leve, moderada ou intensa ainda não foram definidos.

FIGURA 2 – UCEIS (Ulcerative Colitis Endoscopic Index of Severity) Imagem adaptada de: AGA Clinical Practice Update on Endoscopic Scoring Systems in Inflammatory Bowel Disease: Commentary. Clinical Gastroenterology and Hepatology 2024.

Doença de Crohn

Os escores mais utilizados na Doença de Crohn (DC) são:

  1. CDEIS (Crohn’s Disease Endoscopic Index of Severity)
  2. SES-CD (Simple Endoscopic Score for Crohn’s Disease), que se constitui na versão mais prática e simplificada
  3. Em pacientes submetidos a colectomia direita, o Escore de Rutgeert’s é fundamental no manejo pós-operatório.

Resposta endoscópica para DC é definida como: redução de 50% na pontuação do CDEIS ou SES-CD

Remissão endoscópica corresponde a um SES-CD <3 (na ausência de ulcerações) ou CDEIS <4.

O CDEIS varia de 0 a 44 e é um escore complexo, pois leva em consideração muitas variáveis no seu cálculo, o que requer tempo e treinamento do endoscopista, sendo, portanto, pouco utilizado no dia a dia. São avaliados cinco segmentos na colonoscopia (íleo, cólon ascendente, cólon transverso, cólon descendente/sigmoide e reto), e utilizados critérios específicos para pontuação: presença de úlceras profundas ou superficiais; extensão da mucosa acometida (0 – 10 cm); extensão da mucosa ulcerada (0 – 10 cm). Toda pontuação é somada em cada segmento avaliado e dividida no final pelo total de segmentos avaliados. Ainda, pontuação adicional é somada ao final para cada estenose (ulcerada ou fibrótica).

Por outro lado, o SES-CD constitui-se em um escore muito mais prático e aplicável. Leva em consideração quatro variáveis endoscópicas (presença e tamanho de úlceras; porcentagem da superfície acometida por úlceras; porcentagem da mucosa inflamada; presença de estenose – transponível ou intransponível) nos mesmos cinco segmentos do exame. Possui alta correlação com o CDEIS e altas taxas de concordância inter e intraobservador. Conforme a pontuação, a atividade endoscópica da doença pode ser estratificada em:

  • SES-CD 0 a 2: Remissão endoscópica;
  • SES-CD 3 a 6: Atividade endoscópica leve;
  • SES-CD 7 a 15: Atividade endoscópica moderada;
  • SES-CD >15: Atividade endoscópica intensa.

Pacientes submetidos a hemicolectomia direita (também conhecida como ileotiflectomia) usualmente devem ter avaliação endoscópica pós-operatória em 6 a 12 meses, e o grau de inflamação graduado conforme o Escore de Rutgeert’s irá nortear o manejo terapêutico nesta população (Figura 3). O escore varia de i0 a i4, conforme os achados endoscópicos no íleo neoterminal e na anastomose ileocolônica, que são os locais onde o processo inflamatório costuma recorrer após a cirurgia. Pacientes com escores i0 ou i1 (remissão endoscópica), possuem baixo risco de recorrência clínica pós-operatória (8,6% em 8 anos), enquanto 100% dos pacientes com Rutgeert’s i4 apresentaram atividade clínica em 4 anos. Como limitação do escore, sabe-se que, algumas alterações confinadas apenas à anastomose ou na alça ileal em fundo cego podem ser secundárias apenas à isquemia, sem necessariamente requerer mudanças terapêuticas.

  • i0: Sem lesões (remissão endoscópica);
  • i1: ≤ 5 úlceras aftoides no íleo neoterminal (remissão endoscópica);
  • i2a: Lesões confinadas à anastomose, incluindo estenose da anastomose;
  • i2b: >5 úlceras aftoides ou lesões maiores no íleo neoterminal, porém entremeadas por mucosa de aspecto normal (com ou sem alterações na anastomose);
  • i3: Ileíte aftoide difusa, com mucosa ao redor inflamada difusamente;
  • i4: Inflamação difusa com úlceras grandes, nodulações, e/ou estenose no íleo neoterminal.
FIGURA 3 – Escore Modificado de Rutgeert’s
Imagem adaptada de: AGA Clinical Practice Update on Endoscopic Scoring Systems in Inflammatory Bowel Disease: Commentary. Clinical Gastroenterology and Hepatology 2024.

Referências

  1. Anna M. Buchner, Francis A. Farraye, and Marietta Iacucci. AGA Clinical Practice Update on Endoscopic Scoring Systems in Inflammatory Bowel Disease: Commentary. Clinical Gastroenterology and Hepatology 2024;22:2188–2196
  2. Turner D, Ricciuto A, Lewis A, et al. International Organization for the Study of IBD. STRIDE-II: an update on the Selecting Therapeutic Targets in In ammatory Bowel Disease (STRIDE) initiative of the International Organization for the Study of IBD (IOIBD): determining therapeutic goals for treat-to-target strategies in IBD. Gastroenterology 2021;160:1570–1583
  3. American Society for Gastrointestinal Endoscopy Standards of Practice Committee, Shergill AK, Lightdale JR, Bruining DH, et al. The role of endoscopy in in ammatory bowel disease. Gastrointest Endosc 2015;81:1101–1121.e1–13
  4. Travis SP, Schnell D, Krzeski P, et al. Developing an instrument to assess the endoscopic severity of ulcerative colitis: the Ulcerative Colitis Endoscopic Index of Severity (UCEIS). Gut 2012;61:535–542
  5. Khanna R, Nelson SA, Feagan BG, et al. Endoscopic scoring indices for evaluation of disease activity in Crohn’s disease. Cochrane Database Syst Rev 2016;2016:CD010642
  6. Daperno M, D’Haens G, Van Assche G, et al. Development and validation of a new, simplified endoscopic activity score for Crohn’s disease: the SES-CD. Gastrointest Endosc 2004;60:505–512

Como citar este artigo

Mattos PSL. Classificação e escores endoscópicos nas doenças inflamatórias intestinais. Gastropedia 2026, Vol II. Disponível em: https://gastropedia.pub/pt/gastroenterologia/classificacao-e-escores-endoscopicos-nas-doencas-inflamatorias-intestinais/