Diagnóstico de fissura anal crônica: o que o gastroenterologista precisa saber
Autores: Isaac José Felippe Corrêa Neto, Rodrigo Ambar Pinto, Yasmin Gois de Mello, Bárbara Theobaldo, Lucas Ambar Pinto Anjos, Carlos Frederico Sparapam Marques
Fissura anal é uma afecção anorretal frequente, caracterizada por uma lesão linear da anoderme, habitualmente localizada na linha média posterior, associada principalmente à dor intensa durante ou após a evacuação. Embora sua etiopatogenia não esteja completamente esclarecida, resulta provavelmente da interação entre trauma mecânico, alterações da função esfincteriana e fatores vasculares locais. É considerada crônica quando persiste por seis semanas ou mais, podendo apresentar alterações morfológicas como plicoma sentinela, papila anal hipertrófica, fibrose das bordas e exposição das fibras do esfíncter anal interno (EAI)
Quadro clínico
Considerar quando:
- Dor durante e após evacuação (90,8%)
- Sangramento anal (71,4%)
- Descarga anal, prurido, dispareunia
Fatores de risco
- Constipação intestinal
- Fezes ressecadas
- Diarreia
- Cirurgias orificiais
- Trauma local
- Dieta: baixa ingesta de fibras, pão branco, molhos, salsicha, bacon
Diagnóstico
- Exame proctológico com inspeção anal, toque retal e anuscopia: são suficientes para o diagnóstico de fissura anal crônica, restando a colonoscopia mais para diagnósticos diferenciais e rastreamento de câncer colorretal

- Manometria anorretal: exame indicado para avaliação da pressão anal de repouso, que em cerca de 65-70% dos casos de FAC encontra-se elevada, sobretudo para análise pré-operatória. Além disso, a manometria anorretal pode fazer a sugestão de dissinergia pélvica associada ao quadro de fissura anal, podendo inclusive ser um fator de perpetuação do processo.
Diagnósticos diferenciais: sífilis, gonorréia, Tb, clamídia, herpes, SIDA, doença de Crohn
Nessas situações, habitualmente as fissuras são múltiplas e fogem da linha média, notadamente da localização mais comum (posterior)
Tratamento
Objetivos:
- Redução do trauma anal evacuatório
- Alívio da dor
- Redução da hipertonia esfincteriana
Manejo:
- Medidas gerais: dieta, banho de assento, aumento da ingestão híbrica e de fibras, formadores de bolo fecal, pomadas anestésicas, AINH
- Esfincterotomia química
- Pontos positivos:
- Sucesso: 47 a 86%
- 1º linha de tratamento
- Pontos negativos:
- Aplicação frequente
- Cefaléia
- Taquifilaxia
- Dermatite
- Aderência
- Pontos positivos:
- Medicamentos:
- Nitratos:
- Sucesso entre 30-65%
- Principal efeito colateral: cefaleia
- Exemplo: Dinitrato de Isossorbida
- Bloqueadores de canal de cálcio
- Sucesso entre 60-95%
- Principal efeito colateral: cefaleia
- Exemplo: Nifedipina 0,2% ou Diltiazem 2%
- Nitratos:
- Toxina botulínica
- Alívio dos sintomas: 87%
- Cura: 73%
- Recorrência: 40-55%
- Principal efeito adverso: IA transitória🡪7-14% (2-3 semanas)
- Cirurgia
- Fissurectomia:
- Sucesso: +-85%
- Taxa de incontinência anal: 2%
- Satisfação: 85-90%
- Esfincterotomia lateral interna
- Padrão ouro
- Sucesso: 90-97%
- Taxa de incontinência anal: 3-5%
- Fissurectomia:

- Avanço de retalho anal
- Sucesso: 77-85%
- Indicado principalmente em casos de fissura com fibrose e ausência de hipotonia esfincteriana


Fluxograma de manejo da fissura anal

Conclusões/mensagens finais
- Iniciar, se possível, com medidas clínicas
- Manometria anorretal é exame pré-operatório fundamental e recomendado
- Sempre verificar em pré-operatório se paciente apresenta sintomas de escape de fezes ou flatos e fatores de risco para incontinência fecal, como: multíparas, idosos, cirurgias orificiais prévias e Diabetes Mellitus
- Fatores de prognóstico negativo para qualquer forma de tratamento clínico (esfincterotomia química ou toxina botulínica): tempo de história, exposição de fibras do esfíncter anal interno, plicoma sentinela e fibrose
Referências
- Brillantino A, Renzi A, Talento P, et al. The Italian Unitary Society of Colon-proctology (SIUCP: Società Italiana Unitaria di Colonproctologia) guidelines for the management of anal fissure. BMC Surg. 2023;23(1):311. doi:10.1186/s12893-023-02223-z.
- Cross KLR, Brown SR, Kleijnen J, et al. The Association of Coloproctology of Great Britain and Ireland guideline on the management of anal fissure. Colorectal Dis. 2023;25(12):2423-2457
- Davids JS, Hawkins AT, Bhama AR, et al. The American Society of Colon and Rectal Surgeons Clinical Practice Guidelines for the Management of Anal Fissures. Dis Colon Rectum. 2023;66(2):190-199.
- Altomare DF, Binda GA, Canuti S, Landolfi V, Trompetto M, Villani RD. The management of patients with primary chronic anal fissure: a position paper. Tech Coloproctol. 2011;15(2):135-141.
- Júnior CWS, Bacchi JAH, Sobrado LF, Guzela VR, Nahas SC, Cecconello I. Anoplasty with skin tag flap for the treatment of chronic anal fissure. Rev Col Bras Cir. 2019; 46(3):1-8
Como citar este artigo
Neto IJF, Pinto RA, Mello YG, Theobaldo B, Anjos LAP, Marques CFS. Diagnóstico de fissura anal crônica: o que o gastroenterologista precisa saber. Gastropedia 2026, Vol II. Disponível: https://gastropedia.pub/pt/cirurgia/diagnostico-de-fissura-anal-cronica-o-que-o-gastroenterologista-precisa-saber/